Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) desenvolveram uma estratégia inovadora que promete transformar o diagnóstico da hanseníase no Brasil. O método combina um exame de sangue capaz de detectar o antígeno Mce1A — uma proteína que ajuda o bacilo a invadir células humanas — com um questionário clínico analisado por inteligência artificial. O estudo, publicado na revista BMC Infectious Diseases, demonstrou 100% de sensibilidade ao cruzar os dados laboratoriais com a ferramenta de IA, identificando casos em estágios iniciais que passariam despercebidos por exames tradicionais.
A grande vantagem do novo teste (anti-Mce1A) em relação ao convencional (anti-PGL-I) é a sua capacidade de analisar três classes de anticorpos simultaneamente. Enquanto o método antigo costuma dar positivo apenas em formas graves da doença, a nova técnica identifica o contato com o bacilo e a infecção ativa de maneira muito mais precoce. Durante os testes, realizados a partir de amostras coletadas em um inquérito de Covid-19, a ferramenta permitiu diagnosticar pessoas que não apresentavam sintomas evidentes e sequer suspeitavam da enfermidade.
O Brasil é atualmente o segundo país com mais casos de hanseníase no mundo, concentrando 90% das notificações nas Américas. O diagnóstico precoce é o principal gargalo para interromper a cadeia de transmissão e evitar sequelas físicas. Segundo os pesquisadores, a implementação dessa tecnologia no SUS teria baixo custo, já que utiliza infraestrutura laboratorial comum. O próximo passo do projeto é validar o marcador em larga escala e refinar a proteína utilizada para aumentar ainda mais a acurácia do diagnóstico na rede pública.